O ERP organiza a cadeia de suprimentos da pequena e média empresa quando a compra deixa de ser uma conversa entre o comprador e o fornecedor e passa a seguir uma trilha registrada: alguém pede, alguém cota, alguém aprova, o pedido vai ao fornecedor e o recebimento é conferido contra ele. Os sete recursos abaixo formam essa trilha. Para cada um, vale separar o que o sistema oferece do que a empresa precisa decidir, porque é aí que a maioria das implantações de compras tropeça.
1. Cadastro de fornecedores com condições comerciais
O ponto de partida é um cadastro de fornecedor que vá além de nome e documento. As condições que pesam na decisão de compra precisam estar no sistema: prazo de pagamento, prazo de entrega habitual, pedido mínimo, quem paga o frete, contato comercial e produtos que ele fornece.
Com isso, o comprador consulta em uma tela o que hoje está espalhado em e-mails. Exemplo hipotético: dois fornecedores vendem o mesmo item a R$ 10, mas um entrega em 3 dias com frete pago e o outro em 10 dias com frete por conta do comprador. O preço é igual; a decisão não.
O que depende da empresa: manter essas condições atualizadas. Um cadastro com prazos de dois anos atrás induz a decisões erradas.
Erro comum: cadastrar o mesmo fornecedor duas vezes, uma para cada filial ou vendedor dele. O histórico de compras se divide e a empresa perde a noção de quanto compra no total daquele parceiro, justamente o número que mais pesa na negociação.
2. Requisição de compra interna
A requisição é o pedido que uma área faz ao setor de compras: o depósito pede reposição, a produção pede insumo, o administrativo pede material de escritório. No ERP, ela registra quem pediu, o quê, quanto e para quando.
O recurso resolve um problema clássico da empresa em crescimento: compras feitas diretamente por várias pessoas, sem consolidação. Com a requisição, três pedidos do mesmo item por áreas diferentes viram um único pedido ao fornecedor, com melhor condição.
O que depende da empresa: definir quem pode requisitar e se há compras que dispensam requisição, como itens de valor muito baixo.
Erro comum: aceitar requisição sem data de necessidade. Sem ela, o comprador não sabe o que é urgente e acaba pagando frete expresso para o que podia esperar, ou atrasando o que travava a produção.
3. Cotação com mapa comparativo
A cotação envia a mesma solicitação a vários fornecedores e organiza as respostas lado a lado: preço, prazo de entrega, condição de pagamento, frete. O mapa comparativo mostra o resultado e registra qual proposta foi escolhida e por quê.
O registro do motivo é o que mais ajuda depois. Seis meses adiante, quando alguém perguntar por que o fornecedor mais caro foi escolhido, a resposta ("único com entrega em 48 horas") está no sistema, e não na memória do comprador que talvez já tenha saído da empresa.
O que depende da empresa: decidir a partir de que valor a cotação é obrigatória e quantas propostas são exigidas.
Erro comum: comparar só o preço unitário. Uma proposta R$ 0,50 mais barata por unidade pode sair mais cara quando o frete é por conta do comprador ou o prazo de pagamento é menor. O mapa comparativo só ajuda se todas as condições forem preenchidas para todos os fornecedores.
4. Pedido de compra com aprovação por alçada
O pedido de compra formaliza o que foi negociado. No ERP, ele pode exigir aprovação conforme o valor: até certo limite o comprador aprova sozinho; acima dele, o gestor; acima de outro, o dono. Isso é a alçada.
Exemplo hipotético: alçada do comprador até R$ 5.000, do gerente até R$ 20.000 e do dono acima disso. Um pedido de R$ 8.000 fica parado até o gerente aprovar, e o sistema registra quem aprovou e quando. Aprovações pelo celular evitam que a regra vire gargalo.
O pedido aprovado também alimenta o financeiro com a previsão de pagamento, antes mesmo de a nota chegar. Essa é uma das ligações que mostram como funciona um ERP com documentos que geram documentos.
O que depende da empresa: fixar os valores das alçadas. Alçadas baixas demais travam a operação; altas demais tornam a aprovação decorativa.
Erro comum: dividir um pedido grande em vários pequenos para ficar abaixo da alçada. O sistema pode alertar quando o mesmo fornecedor recebe vários pedidos do mesmo item em poucos dias, mas a regra só funciona se alguém olhar o alerta.
5. Sugestão de compra pelo histórico de consumo
A sugestão de compra calcula quanto pedir de cada item com base no consumo médio, no estoque atual, nos pedidos já em trânsito e no prazo de entrega do fornecedor. Em vez de o comprador percorrer a lista de produtos, o sistema apresenta os itens que precisam de reposição e uma quantidade sugerida.
O cálculo depende de parâmetros que a empresa define: estoque mínimo, estoque de segurança, período de consumo considerado. Itens sazonais exigem cuidado, porque a média dos últimos meses pode não refletir o próximo. A sugestão é ponto de partida; quem conhece o mercado ajusta.
O que depende da empresa: revisar os parâmetros dos itens mais importantes ao menos a cada trimestre. Um prazo de entrega desatualizado no cadastro do fornecedor distorce toda a sugestão.
Erro comum: aceitar a sugestão inteira sem revisão no primeiro mês de uso. Os parâmetros recém-cadastrados raramente estão calibrados, e uma compra grande baseada neles pode encher o depósito de itens de baixo giro.
6. Recebimento conferido contra o pedido
Quando a mercadoria chega, o ERP compara três coisas: o que foi pedido, o que veio na nota fiscal e o que foi efetivamente recebido. Diferenças de quantidade, preço ou item aparecem antes de a nota ser lançada e de o título a pagar ser gerado.
Esse recurso protege a empresa de pagar por algo que não pediu ou que não chegou. Também gera um histórico útil para o recurso seguinte: quantas entregas de cada fornecedor vieram com divergência.
O que depende da empresa: definir a tolerância. Uma diferença de centavos no preço pode ser aceita automaticamente; uma diferença de quantidade quase nunca deveria ser.
Erro comum: lançar a nota primeiro e conferir a mercadoria depois. Quando a divergência aparece, o título já foi gerado e às vezes até pago, e a correção vira uma negociação de crédito com o fornecedor em vez de uma recusa na porta.
7. Avaliação de desempenho dos fornecedores
Com os recursos anteriores funcionando, o ERP acumula dados que permitem avaliar cada fornecedor por fatos: entregas no prazo, entregas com divergência, variação de preço ao longo do tempo, tempo médio entre pedido e recebimento.
É aqui que o relacionamento com fornecedores deixa de ser impressão. Em vez de "esse fornecedor sempre atrasa", a conversa de negociação passa a ser "das últimas vinte entregas, sete chegaram depois do prazo combinado". Isso ajuda tanto a cobrar quanto a reconhecer o fornecedor que cumpre o combinado.
Esses indicadores de compras também entram na medição do resultado do sistema; prazos de entrega e divergências são bons candidatos entre os indicadores para medir o retorno sobre o investimento em ERP.
O que depende da empresa: usar a avaliação. Um relatório de desempenho que ninguém abre na hora de cotar não muda nada na cadeia de suprimentos.
Erro comum: avaliar o fornecedor com base em poucos registros. Duas entregas atrasadas em um mês de feriado não dizem muito; vinte entregas ao longo de um semestre dizem. Antes de levar o número para a negociação, confira o período e o volume de pedidos que ele considera, e se os atrasos foram causados pelo fornecedor ou por um pedido feito com prazo menor que o habitual.